O Cristal da Traição

Acredito que traição não tem perdão, até porque traição não é um erro, uma falha ou um simples tropeço. Traição é uma decisão. Uma escolha lúcida, premeditada, forjada por um desejo deliberado de estar com outra pessoa, de beijar ou transar com alguém que não é o seu parceiro. É uma decisão consciente de se entregar a outra presença, rompendo um pacto silencioso de confiança e lealdade.

Há mais de 25 anos, costumo usar o exemplo do cristal quebrado para tentar explicar o que a traição representa. O cristal, quando se parte, dificilmente pode ser restaurado. Ainda que se consiga colar os pedaços com cuidado, dedicação e esforço, ele jamais voltará a ser o mesmo. As rachaduras continuam ali. Os arranhões se tornam cicatrizes visíveis. A transparência se perde. A beleza original, pura e intacta, nunca mais será recuperada.

A traição funciona do mesmo modo. Mesmo que o relacionamento continue, mesmo que o perdão seja verbalizado, algo se quebra dentro da alma do traído. É um rompimento invisível, mas profundo. E, pior, é um dano que não afeta apenas o relacionamento, ele destrói também a imagem que se tinha do outro, a confiança nas palavras, e o próprio valor da entrega.


O segredo, então, não está em saber perdoar, mas em nunca quebrar o cristal.


Evitar a traição não é só uma questão de fidelidade ao outro, mas de fidelidade a si mesmo. Porque quem ama verdadeiramente cuida do que constrói. Não se deixa levar por impulsos passageiros. Não troca o permanente pelo momentâneo, o essencial pelo trivial.

E aqui entra a reflexão psicológica e filosófica mais profunda: trair é mais do que ferir o outro. É também romper com partes da própria identidade. É destruir a própria integridade, abrindo espaço para a culpa, a desonra e o vazio.

Muitos pensam que estão buscando prazer ao trair, mas o que realmente estão fazendo é fugir de si mesmos.


A traição revela mais sobre quem trai do que sobre quem foi traído.


Ela denuncia um abismo interior, um conflito não resolvido, um ego que clama por validação, mesmo que ao custo da verdade.

A fidelidade, portanto, não é só um compromisso afetivo, é um estado de consciência.


Amor não é um sentimento passageiro, tampouco uma paixão momentânea. A paixão não exige comprometimento. O amor, sim. Amor é uma decisão firme e consciente de estar ao lado de uma pessoa, aconteça o que acontecer, na tristeza ou na alegria, na prosperidade ou na escassez. Até que a morte os separe.


Amar é escolher, dia após dia, permanecer mesmo quando as emoções oscilam. É sustentar a presença mesmo nos silêncios, mesmo nos dias em que o encanto parece adormecido. O amor maduro não se alimenta apenas de flores, mas também de raízes.

Ele exige paciência, renúncia e um tipo de coragem que não se aprende em romances. É um exercício constante de empatia, de compreensão e, sobretudo, de lealdade ao que foi construído.

Porque, no fim das contas, amar não é apenas sentir. É decidir. É assumir a responsabilidade de caminhar junto, mesmo quando o caminho não for fácil.

Amor é um pacto entre duas almas que compreendem que a beleza da vida está em construir algo verdadeiro, apesar das imperfeições, e em não desistir um do outro quando tudo parecer mais difícil.

Uma manifestação do caráter. Uma expressão madura do amor. E talvez seja justamente por isso que o cristal seja tão simbólico: bonito, transparente e delicado. Quando inteiro, brilha. Quando quebrado, corta.

Léo Vilhena


Publicado

em

por

Tags: